SOB O OLHAR AZUL – Sobre Furtos e Emoções

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Comprei minha casa há quase quinze anos.
Quando viemos morar aqui foi uma realização de sonho. 
Casa própria, finalmente, num bairro novo e, aparentemente, tranquilo, com ruas largas e arborizadas.
Quatro anos depois sofri um pequeno furto. Prejuízo de roupas e bijouterias, alguma comida, uns vidros quebrados e uma semana com meus cachorros desaparecidos.
Ainda muito desapegada e descrente da necessidade de maiores providências de segurança, só mandei fazer duas barras de ferro pra porta da cozinha, de fechadura simples.
Mais dois anos, o segundo furto.
Fui viajar com minha mãe, numa semana santa, e mal desembarcamos em Campo Grande, fiquei sabendo que haviam entrado em minha casa.
Dessa vez o prejuízo foi muito grande. Levaram tudo que dava pra vender.
Pior ainda foi, ao desvendar, descobrir que fui furtada por um amigo do meu irmão. Totalmente dependente químico, ele trocou meus objetos de conforto, duramente pagos, por algumas pedras de crack e, já no outro dia, furtou outras casas por aqui.
Até hoje, 8 anos depois, ainda não foi a julgamento. Mesmo tendo entregado os receptadores do computador e do aparelho de DVD. O restante não recuperei. A perícia desse furto demorou 10 meses para acontecer.
Em janeiro do ano passado, mais um furto. Dessa vez um super furto. Além de objetos de fácil venda, o ladrão furtou emoções irrecuperáveis.
Jóinhas da tia avó, os dentinhos de leite dos meus filhos, minhas coleções de moedas e de lápis, meus anéis e brincos, roupas, minhas bolsas.
Espalhou minhas calcinhas pela casa, dessarumou gavetas, levou eletrodomésticos muito usados, meu faqueiro de casamento, minha rede.
Levou minha memória afetiva e minha memória fotográfica, armazenada na câmera e no computador.
Esse ladrão também é de origem conhecida, mas sua atitude não espanou minha amizade com sua mãe. Guerreira que é e sempre foi não poderá, nunca, ser culpada pelo caminho escolhido por seu filho.
Ele foi preso por tráfico logo após furtar minha casa e, só por isso, descobri a autoria do sinistro. Alguns objetos meus apareceram na foto da apreensão. Só um mínimo. A perícia apareceu 3 meses depois.
Não se recupera emoções.
O prejuízo desse nível é muuuiiittooo fodaaaaa!
Dói demais.
Hoje, um ano e oito meses depois, fui prestar depoimento no fórum.
Disse ao advogado do talzinho que não queria estar com ele no mesmo espaço físico.
É uma pessoa da qual tenho medo e aversão. Medo por ele ter escolhido a vida que leva com convicção. Aversão porque foi maldade pura o que ele me inflingiu furtando minha casa e minha memória afetiva.
Foi uma tarde muitoooo desgastante pra mim.
Senti toda aquela tristeza novamente: de quando cheguei e encontrei minha casa destruída, minha privacidade exposta, minhas memórias afetivas perdidas.
Transformei minha casa num “bunker”.
Tenho construído novas e boas lembranças.
Preservei minha amiga.
Até a próxima, queridos leitores.

1 COMENTÁRIO

  1. Boa tarde!
    Ao ler essa matéria da amiga Andrea, fiquei muito triste, pois no mundo de hoje não podemos mais conafiar nas pessoas. Já fui vítima de roubo muitas vezes em certos lugares em que morei.
    Em todos os roubos a polícia nunca compareceu, mas acredito que quem roubou nunca foi pra frente, continua na mesmice.
    Que Deus olhe por nós, porque continuamos a merce desses malacas que só querem coisas fáceis.

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