Com isso, a fazenda Campina, em Caiuá, no interior do Estado, pertencente ao Grupo Carlos Viacava, um dos maiores produtores de gado nelore mocho do Brasil, adotou um sistema que integra a criação de animais e o cultivo de grãos.
A fazenda Campina é um exemplo de como o sistema Integração Lavoura-Pecuária (ILP) aumenta a disponibilidade de nitrogênio e de outros nutrientes no solo, trazendo ganhos para a pecuária e para o meio ambiente, pois ajuda a abrandar a emissão de dióxido de carbono (CO2) e outros gases de efeito estufa para a atmosfera.
Especializado na produção de matrizes, animais altamente selecionados e comercializados para dar origem a outros rebanhos, o grupo vem diminuindo a ocupação das propriedades pelo gado e aumentando a participação dos grãos.
Rentabilidade
Embora a ocupação da propriedade pelo rebanho tenha caído de 97% para 50% desde 2012, sendo hoje a outra metade cultivada com milho, sorgo, feijão guandu e, principalmente, soja, a rentabilidade com o gado aumentou.
De acordo com os produtores, o consórcio entre animais, pastagem e grãos tornou o solo mais rico e o gado passou a expressar melhor a genética. Além disso, as vacas passaram a se tornar férteis com apenas 14 meses de idade (a média brasileira é de 24 meses), gerando mais bezerros ao longo da vida.
“Hoje, o gado expressa muito melhor a sua genética por causa da qualidade do pasto. Nos últimos anos, ganhou em média 500 gramas por dia, enquanto no sistema anterior ganhava 100 gramas diariamente”,afirma Juliano Roberto da Silva, zootecnista do grupo empresarial.
O especialista apresentou os resultados em um evento realizado no mês passo em Presidente Prudente, no âmbito do projeto Nucleus (Nitrogen Use effiCiency via an integrated SoiL-plant systEms approach for the Uk & BraSil).
Financiamento
Vale destacar que a iniciativa é financiada por meio de um acordo entre o Biotechnology and Biological Sciences Research Council (BBSRC) e o Newton Fund, ambos do Reino Unido, com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e o Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap).
O projeto também tem apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg) e da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema). No encontro, estiveram presentes pesquisadores e estudantes do Reino Unido, São Paulo, Goiás e Maranhão.
“Na integração lavoura-pecuária, que pode incluir também a floresta, o produtor pode até não ter retorno em todas as atividades praticadas, mas os ganhos na fertilidade e na física do solo são tão grandes que o lucro em um desses fatores compensa uma eventual perda nos demais”,explica Juliano Calonego, professor da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) da Unesp, em Botucatu.
Produção
Nesse sistema consorciado, uma área fica, em média, dois anos com pastagem e outros dois anos com lavoura. No caso da fazenda Campina, o crescimento da rentabilidade não veio da receita da venda de grãos. O zootecnista Juliano Roberto da Silva destaca que, apenas para pagar os custos da produção da soja, precisa colher em média 50 sacas por hectare, mas raramente consegue essa produtividade.
Na fazenda experimental da Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), uma das instituições participantes do Nucleus, são criados quatro animais por hectare no terreno em que houve integração de gado com lavoura. A média brasileira de ocupação de pastagem é de menos de um animal por hectare.
“Se houver adição de nitrogênio no solo, dobramos esse número”,disse Paulo Gomes da Silva, professor da Unoeste, durante visita dos participantes do evento à fazenda experimental.
Com a produção de grãos no Brasil chegando ao pico, especialistas apontam as pastagens degradadas como a próxima fronteira agrícola. Ao implementar a integração lavoura e pecuária nessas áreas, a estimativa é de um aumento na produção de grãos do Brasil, ao mesmo tempo em que se recuperam as áreas para pastagem.
Eficiência
O foco do projeto Nucleus é buscar a eficiência no uso de nitrogênio em sistemas de produção agrícola. Os pesquisadores têm demonstrado que a melhor forma de aumentá-la é por meio do cultivo de gramíneas forrageiras e grãos no mesmo terreno, seja em rotação ou em consórcio.
“Ao manter o solo coberto, usando gramíneas com raízes profundas, evitamos que o nitrogênio seja lixiviado para o lençol freático, causando contaminação, ou perdido para a atmosfera”, salienta Ciro Rosolem, professor da FCA-Unesp e coordenador do Nucleus no Brasil.
Na integração da lavoura com a pecuária, outra vantagem é que a cobertura vegetal, ao absorver CO2, compensa em parte as emissões de metano (CH4) do gado, pois mantém no sistema o elemento químico carbono.
Além de conhecer as dinâmicas de diversos tipos de solo, seja do Estado de São Paulo, Goiás, Maranhão e de várias regiões do Reino Unido, a parceria gera conhecimento sobre o solo de maneira mais global, com resultados científicos que podem ser aplicados em outros locais além dos estudados.
Cientistas
O projeto, que se encerra neste ano, teve mais de 40 cientistas envolvidos, 12 instituições, 12 artigos científicos já publicados e mais de 20 em preparação, além do intercâmbio de mais de uma dezena de estudantes de pós-graduação e pesquisadores seniores.
“Há muitos resultados interessantes emergindo nesse campo em termos de otimização de estratégias de cultivo consorciado, especialmente no que se refere às melhores gramíneas forrageiras”, enfatiza Sacha Mooney, professor da Universidade de Nottingham e coordenador do projeto no Reino Unido.
O docente também conta que o grupo aprendeu muito sobre como a estrutura do solo influencia a arquitetura das raízes, como isso se desenvolve sob vários sistemas e de que forma pode ser melhorado pelo uso de plantas e de aplicação de calcário.

(do Portal do Governo SP e Fapesp)

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