Por Gesiel Júnior
Especial para Botucatu online
Transcorre neste 15 de agosto os 100 anos do nascimento de dom Sílvio Maria Dário, nome hoje pouco lembrado entre o clero regional, embora ele tenha trabalhado discreta e admiravelmente por mais de duas décadas na Cúria de Botucatu, como chanceler e vigário-geral. E mais: até agora ele foi o único a exercer a função de bispo-auxiliar na história arquidiocesana, entre 1965 e 1968, anos críticos na Igreja e no mundo.
Em 2004, convidado, pesquisei e publiquei o livro “Dom Sílvio – A história de um bispo”, pela Editora Gril, obra comemorativa dos 30 anos da morte do biografado, provocada por insuficiência cardíaca, quando ele atuava como o primeiro titular do bispado de Itapeva.
Nesse volume de 200 páginas conto a vida do filho de imigrantes italianos, nascido em Pederneiras, que ainda menino ingressou no Seminário São José e abraçou os estudos com afinco e modéstia. Sílvio cursou filosofia e teologia no Seminário Central de São Paulo, mantendo lá, segundo os colegas, uma encantadora simplicidade.
Vários de seus professores depois se tornaram bispos. Concluiu a sua formação recebendo o sacramento da ordem no dia 8 de dezembro de 1944, na Catedral de Sant’Ana, então ainda em obras, pela imposição das mãos de dom frei Luiz Maria de Sant’Ana, terceiro bispo de Botucatu.
Padre Sílvio iniciou o seu ministério como professor e diretor espiritual dos seminaristas. Em 1948, com a vinda de dom frei Henrique Golland Trindade, o franzino sacerdote conviveu lealmente com esse prelado franciscano, de quem se tornou secretário e depois, por mérito, bispo-auxiliar. Nomeou-o para a função o papa Paulo VI, canonizado no ano passado.
“SANTO DO POVO”
O mesmo São Paulo VI fez de Itapeva, no sul paulista, diocese em 1968 e transferiu para lá dom Sílvio. Região com poucos recursos econômicos na época, distante dos grandes centros e com clero diminuto, tais problemas afligiram o primeiro bispo, cuja fragilidade e bondade a muitos impressionavam. O coração do pastor, porém, não suportou tamanha pressão e ele morreu, aos 54 anos, em 1974.
Dos vários depoimentos colhidos para a biografia de dom Sílvio, o de dom Paulo Evaristo Arns, corajoso arcebispo de São Paulo, foi tocante. Ele descreveu o colega com respeito e admiração:
-“Foi em Botucatu, ao lado do brilhante arcebispo dom Henrique Trindade, que conheci e vi pela primeira vez o então jovem padre Sílvio, quando eu ainda era professor no Seminário Franciscano de Agudos. Padre Sílvio prestava os serviços mais urgentes e mais humildes ao arcebispo, sempre disposto, como se esperasse nova possibilidade de causar alegria a alguém. Tão humilde era ele, que parecia um coroinha de dom Henrique”.
O cardeal participou da posse de dom Sílvio.
-“Tive a honra, na qualidade de arcebispo e metropolita, de animá-lo a enfrentar a imensa e pobre circunscrição eclesiástica que era Itapeva naquele tempo. Poucos meses depois, convidou-me ele a pregar uma Semana de Catequese. Me admirei que, em tão pouco tempo, tantas pessoas tivessem sido preparadas para transmitir o evangelho com o espírito otimista, embora intranqüilo, do bispo Sílvio”, recordou-se.
Modesto, resignado e desprendido como um santo, dom Sílvio cativou o cardeal Arns.
-“Pensei numa longa amizade com ele para a vida inteira, quando me surpreenderam num telefonema, perguntando se ele poderia ser recebido num hospital especializado em São Paulo, porque seu caso de saúde parecia gravíssimo. De fato, ao chegar à Beneficência Portuguesa, tão grave era seu estado que os médicos, tão dedicados, me advertiram de que ele corria risco de morte imediata. Mesmo assim arriscaram a cirurgia e explicaram depois, de maneira popular, que o coração de dom Sílvio fora encontrado ‘rompido’. Fui ao funeral deste homem fora de série, na Catedral de Itapeva. Quando cheguei, a praça já estava toda tomada pelo povo, e vinha gente chegando de todos os lados para prestar homenagem à bondade de Deus, que lhes dera um bispo tão afinado com o evangelho e com o povo”.
Para o célebre arcebispo de São Paulo, morto em 2016, dom Sílvio santificou-se em vida:
-“Ele foi para nós o exemplo do cristão em seu sentido mais pleno, e do bispo, sempre humilde e criativo. Tive na época a inspiração de que ele deveria ser beatificado, e, sua obra aparentemente simples e direta, serve de modelo para todos nós”.
Dom Paulo revelou ter muitas vezes invocado o nome de dom Sílvio nos momentos mais complicados durante a repressão militar.
-“Meu testemunho é pessoal, mas acredito que retrate a impressão de todos os que o conheceram e foram por ele beneficiados”, concluiu.
Em 2004, o bispo de Itapeva dom José Moreira de Melo sinalizou que instalaria a postulação da causa de beatificação do seu antecessor, porém o assunto caiu no esquecimento. Hoje, embora dom Sílvio Maria Dário continue sendo invocado com profunda reverência pela piedade popular, tanto em Itapeva como em Botucatu o centenário do humilde bispo passará, pelo visto, sem ser especialmente comemorado.

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