*Gesiel Júnior
Especial para o Botucatu online

O dinamismo da história oferece aos sensatos a chance de rever os fatos e assim honestamente reconhecer que certas impressões jamais corresponderam à aparente suspeição de uma época. A referência é ao episódio sem precedentes, ocorrido entre os anos de 1968 e 1969, em Botucatu, quando a Igreja Católica se viu rachada por uma crise aguda envolvendo a sua hierarquia em delicado período da vida nacional.
Em abril de 1968 o papa Paulo VI, canonizado recentemente pelo papa Francisco, aceitou a renúncia do arcebispo franciscano dom Henrique Golland Trindade e simultaneamente promoveu para o posto dom Vicente Marchetti Zioni, então bispo de Bauru. A surpreendente troca no comando da arquidiocese de Botucatu se tornou traumática a ponto de acarretar a saída de um grupo de sacerdotes descontentes com o processo da sucessão episcopal.
Eclodiu então a mais longa crise clerical já vista no país e no mundo. Como o catolicismo ainda se adequava às medidas de renovação preconizadas pelo Concílio Vaticano II, os padres mais jovens se dispuseram a questionar as estruturas eclesiásticas e a recusar posturas conservadoras.

         Dois polos

 
Faltou, na ocasião, diálogo entre partes estremecidas por diferentes conceitos eclesiológicos.
De um lado, os presbíteros dissidentes temiam retroceder na abertura dada ao laicato para maior participação na vida eclesial num período de antagonismo no país, ferido pelo golpe militar de 1964.
Do outro, o arcebispo nomeado, rigoroso professor, encarado como hierarca supostamente indisposto com a renovação conciliar.
Duas visões da vida, da fé e do mundo. Bons valores nos dois polos.
Rotulado de retrógrado, o bispo promovido só admitia obedecer a determinação pontifícia. Chamada de rebelde, parte do clero recusava-se a aceitar a vinda do pastor convicto do valor da autoridade.
Por fim, sem comunhão, dom Zioni assumiu sua cátedra e os presbíteros rebelados partiram para outros bispados.

         Hoje

 
Tema de livro e de algumas teses universitárias, o caso de Botucatu, meio século depois, mostra que os seus protagonistas tiveram êxitos e reveses, alguns se projetaram e outros desistiram do ministério, enquanto alguns reviram suas posições e se reconciliaram com o arcebispo rejeitado, admitindo que a falta de entendimento em circunstâncias críticas resulta em prejuízos pessoais.
Neste 15 de agosto faz doze anos da morte de dom Zioni. Com austeridade, mas sem intransigência, por duas décadas ele soube imprimir a sua obra pastoral na igreja particular de Botucatu, marcada pela irrestrita fidelidade ao papa. Fez, portanto, da sua autoridade serviço para atender a comunidade católica, tendo eleito a catequese como prioridade na educação dos fiéis.
Passados 50 anos, mesmo que vozes levianas ainda ataquem eventual e arbitrariamente a memória do contestado arcebispo, é importante que se reconheça, à luz da verdade factual, a influência benigna do polêmico, mas admirável dom Vicente Marchetti Zioni na história da Igreja Católica no Brasil.
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*Cronista e pesquisador, membro da Academia Botucatuense de Letras, é autor de 38 livros, dentre os quais a biografia “Dom Vicente Zioni, Mestre da Fé”.

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